Eu sou assim

Sou uma pessoa de poucas palavras

o que minha boca não fala, meus olhos denunciam

minha tez exaspera, minhas entranhas remóem

 

Sou uma pessoa de poucos gestos

o que meu corpo não mostra, meu coração aprisiona

meu estômago regurgita, minha mente entorpece

 

Sou uma pessoa de poucas expressões

o que minha alma não chora, meus músculos retém

minha voz elabora, minha emoção eterniza

 

Sou uma pessoa de poucas ressalvas

o que minha fé não questiona, minha memória aceita

minha existência recebe e meu sofrimento conduz.

 

 

Lição de Vida

Pai Herói

Por um momento só

Olha para mim por um momento só
dá-me tua atenção, um segundo do teu olhar
passeia pela minha face pálida de dor
pelos meus olhos dispersos imersos na angústia
 
Escuta minha prece por um momento só
ouve meu sussurro, testemunha meu lamento
compreende minha fé nas palavras desconexas
de um verso sem sentido, sem sonho e sem vida
 
Oferta-me teu sorriso por um momento só
deixa-me repousar em tua tez de primavera
veste-me de surpresa, de esperança e de cor
e  me mostra a outra face, o outro lado, o outro eu
 
Lança-me tua palavra por um momento só
dá-me tua prosa, teu veredito, tua súplica
empresta-me teu argumento, tua mente, tua crítica
e me ensina tua verdade, teu caminho e tua luta
 
Fica ao meu lado por um momento só
compartilha minha sorte em tua alma de criança
Leva meu instinto até as vias do insuportável
e deixa-me ser o que o meu sonho deseja
 
 

Sê melhor

Ilumina tua mente, veste de luz o teu dia

Tece com devoção o manto do teu entendimento

Espalha ao longo do teu caminho o brilho do teu sorriso

Sê exemplo em tuas ações e coragem em teus sonhos

Transcende a tua graça e orgulha-te de tua história

Aprofunda tua paz e divide-a com teu irmão

Sê mais forte, sê mais fraco

Sê mais puro, sê melhor

Sê cada dia mais do que sonhastes

O fantasma do metrô – Capítulo 2

Ansiosa, ela esperava no saguão do aeroporto. Muitos anos haviam se passado e agora ele estava voltando. O que ela não conseguia entender era porque ele tinha pedido justamente a ela para buscá-lo no aeroporto.

Desde a última vez em que se viram, cinco anos antes, nunca mais se falaram. E todos estes anos ela vivera como se aquela história nunca tivesse acontecido. Agora, de repente tudo voltava à tona em um turbilhão de imagens adormecidas e sentimentos sepultados. Ela não conseguia se conter. A angústia era demais e a deixava paralisada de medo e arrependimento.

Olhando fixamente pelo vidro embaçado sentia-se aliviada e ao mesmo tempo temerosa. Em sua mente os pensamentos se misturavam em uma dança onde passado e presente se enfrentavam buscando respostas há muito esquecidas.

Muitas coisas haviam mudado desde a última vez em que se encontraram. Se antes ela era imatura e impetuosa, os anos a haviam tornado não só mais prudente, mas também mais conformada com sua sorte. Há muito já não acreditava na felicidade e sentia-se em paz com isto. Agora, porém, este novo acontecimento do destino desafiava suas crenças.

Ela relutara muito em ir até ali. Inicialmente havia lhe dito que não iria, que não havia motivo para se reencontrarem, mas a voz dele ao telefone não deixava dúvidas sobre sua intenção definitiva de revê-la. E ela não tinha forças para desafiá-lo. Ela o conhecia muito bem e, apesar da distância nos últimos anos, podia perceber que ele continuava obstinado e destemido. Assim, sabia que ele cumpriria a promessa de ir ao seu encontro logo que chegasse na cidade.

Imersa em seus pensamentos, nem percebeu que uma lágrima escapou-lhe no canto do olho direito, correndo a encontrar-se com seus lábios ressecados pela expectativa do reencontro. De repente, uma voz calma e firme anunciou no alto-falante a chegada do vôo. O anúncio a despertou imediatamente de seu torpor, fazendo com que se deparasse com a dura realidade que a esperava. Estava prestes a encarar seu passado.

Consciente do que a aguardava, pensou em ir embora. Afinal, não se sentia obrigada a estar ali, a não ser por sua consciência que teimava em lhe cobrar respostas sobre tudo a que havia renunciado. Resignada, resolveu ficar e manter-se calma até o fim.

Quando deu por si o avião já taxiava na pista e ela podia ouvir o barulho do motor diminuindo. Está na hora, ela pensou. Não tenho mais como adiar. Rapidamente dirigiu-se ao portão de desembarque, guiada pelo coração que, parecia, ia saltar-lhe pela boca.

Esperançosa de conseguir vê-lo antes do reencontro esticou o pescoço no vidro que dava para o salão tentando um melhor ângulo para ver os passageiros que adentravam o recinto. Um a um iam descendo as escadas, como numa coreografia mal ensaiada.

Em sua mente ela selecionava cuidadosamente as lembranças que guardava de seu rosto. Os olhos eram de um azul tão intenso que lembravam o mar nos dias de verão. A pele morena contrastava com seus cabelos acobreados pelos raios do sol. O largo sorriso deixava sua expressão ainda mais cativante.

Enquanto observava atentamente as pessoas que iam se aglomerando no salão, ela o avistou no alto da escada. Era ele! Só podia ser ele. Ela sentia com todo o seu ser a sua presença, e mesmo que estivesse a muitos metros de distância saberia identificá-lo em meio a uma multidão. Calmamente ele desceu as escadas, degrau por degrau, parecia um tanto cansado, um pouco mais magro e abatido. Caminhava de cabeça baixa em direção à saída.

De repente ele olhou para frente e em uma fração de segundo seus olhos se encontraram. Ela sentiu como se o tempo tivesse parado. Todos os seus anos de vida, de experiência, de estudos e aprendizado agora de nada valiam. Naquele vácuo do tempo o que lhe restava era apenas o amor que sentia por ele. Ela se arrependeu por não tê-lo amado mais no passado e se sentiu grata por saber amá-lo tanto naquele momento.

O mergulho no oceano daqueles olhos azuis lhe tirou o fôlego e por um momento precisou recobrar a respiração, o que fez com muito custo. Sentiu-se corar e baixou os olhos, pois não agüentava o peso em sua consciência imputando-lhe a culpa por tê-lo  deixado partir. O curto espaço que os separava lhe permitiu apenas respirar fundo uma vez mais até que em segundos ele a alcançou. Estavam frente a frente, após todo aquele tempo, e só o que ela conseguia pensar era que não devia ter vindo.

Entretanto, era tarde demais, precisava enfrentar seus fantasmas e reescrever sua história. Assim, em um impulso, misto de dor e saudade, conseguiu saudar-lhe e dizer que estava feliz por reencontrá-lo. Dele, recebeu um amável sorriso e um caloroso abraço. Envolta por seus braços sentiu-se viva e podia percebê-lo pleno de gratidão por estar ali. Após o longo cumprimento entreolharam-se e neste momento ela se perguntou o que estivera fazendo com sua vida por todo aquele tempo. Decidida, puxou-o para perto de si e lhe prometeu que jamais o deixaria ir embora novamente.

Juntos deixaram o aeroporto rumo à nova vida que escolheram viver.

 

(continua…)

 

O fantasma do metrô – Capítulo 1

No meio da noite Henriqueta ouviu seu nome. Acordou assustada e o viu parado à sua frente.

Sem acreditar naquela visão esfregou os olhos vigorosamente e tornou a abri-los. Ele ainda estava lá. Ela pensou que talvez estivesse sonhando. Fechou os olhos novamente e tornou a abri-los. Neste momento, ele lhe deu um sorriso.

Agora ela estava assustada.
Pensou em gritar, mas àquela hora da noite os vizinhos não iriam ouvir. Pensou então em sair correndo, mas teve medo dele segui-la. Achou que poderia arremessar o abajur contra ele, mas teve medo dele revidar, embora não entendesse muito bem como um fantasma poderia fazer isto. Mesmo assim, achou melhor não arriscar.

Então, num ato de coragem, confrontou-o:

- Quem é você? O que você quer?

Neste momento, a imagem se desvaneceu, sumindo em meio a uma névoa branca. Henriqueta apertou os olhos procurando ver alguma coisa. Nada. Não conseguia ver mais nada. Ficou pensativa tentando entender o que tinha acontecido. Adormeceu imersa em seus próprios pensamentos.

Acordou com um solavanco.
Olhou ao redor assustada, estava no metrô. Ficou desesperada, tinha dormido no caminho para o trabalho. Sentia-se atordoada. Tentou se levantar, mas sentiu-se zonza. Estava enjoada e teve medo de desmaiar. Apoiou-se na janela e deixou-se cair pesadamente sobre o banco.

Quando as portas do metrô se abriram na estação seguinte um homem entrou. Henriqueta sentiu-se desfalecer, ao perceber que era o fantasma. Ele correu para ampará-la antes que caísse.

Quando ela acordou em seus braços, ele lhe sorria delicadamente.

 

(continua…)

 

Inspiração

Vai embora como um suspiro
Escapa por um sôfrego respiro
Volta numa onda de emoção
Inundando a mente em novo turbilhão

 

Nasce na fé espalmada
Silenciando o medo da derrocada
Aparta a dor da ilusão
Permanecendo incerta na cavalgada

 

Espia entre uma lágrima e outra
O momento certo de ressurgir
Assim faz por querer ficar
Abafa o medo de ter que ir

 

Traz augúrios de um bem futuro
Impõe ares de nova estrada
Morre e se renova
A cada palavra imaginada.

 

CARTA DE DESPEDIDA

Enfim a longa noite escura se foi

Posso repousar

Resta apenas a dor da despedida

Entalada na garganta

Despedida da alegria que não tive

Do amor que não recebi

Da verdade que não conheci

Da saudade que não senti

Da vida que não vivi

A paz invade os espaços vazios

Mas a tormenta continua dentro de mim

Choro abafado não há mais

Só resta a desesperança

Mas o que mantém a chama acesa

É a renovação em um novo existir

Que se desenha a partir do passado

E se faz no futuro

Clara luz me fita

Chegou a hora, tenho que ir.

 

Olha para dentro de ti

Quando não souberes a resposta

olha para dentro de ti

Busca em tua história

o sentido do hoje

Resgata em tua memória

o entendimento que te escapa

Acessa os espaços vazios de tua alma

e enche-os de paz

Encontra teu silêncio

e medita no teu amanhã

Revoga da tua mente

a sina do sofrimento

E embala tua sorte

no acalento do teu sonho

Sente tua ira e perdoa

Aceita tua impotência e cede

Agradece tua imperfeição e pede

Compreende tua incapacidade e recomeça

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