O fantasma do metrô – Capítulo 2

Ansiosa, ela esperava no saguão do aeroporto. Muitos anos haviam se passado e agora ele estava voltando. O que ela não conseguia entender era porque ele tinha pedido justamente a ela para buscá-lo no aeroporto.

Desde a última vez em que se viram, cinco anos antes, nunca mais se falaram. E todos estes anos ela vivera como se aquela história nunca tivesse acontecido. Agora, de repente tudo voltava à tona em um turbilhão de imagens adormecidas e sentimentos sepultados. Ela não conseguia se conter. A angústia era demais e a deixava paralisada de medo e arrependimento.

Olhando fixamente pelo vidro embaçado sentia-se aliviada e ao mesmo tempo temerosa. Em sua mente os pensamentos se misturavam em uma dança onde passado e presente se enfrentavam buscando respostas há muito esquecidas.

Muitas coisas haviam mudado desde a última vez em que se encontraram. Se antes ela era imatura e impetuosa, os anos a haviam tornado não só mais prudente, mas também mais conformada com sua sorte. Há muito já não acreditava na felicidade e sentia-se em paz com isto. Agora, porém, este novo acontecimento do destino desafiava suas crenças.

Ela relutara muito em ir até ali. Inicialmente havia lhe dito que não iria, que não havia motivo para se reencontrarem, mas a voz dele ao telefone não deixava dúvidas sobre sua intenção definitiva de revê-la. E ela não tinha forças para desafiá-lo. Ela o conhecia muito bem e, apesar da distância nos últimos anos, podia perceber que ele continuava obstinado e destemido. Assim, sabia que ele cumpriria a promessa de ir ao seu encontro logo que chegasse na cidade.

Imersa em seus pensamentos, nem percebeu que uma lágrima escapou-lhe no canto do olho direito, correndo a encontrar-se com seus lábios ressecados pela expectativa do reencontro. De repente, uma voz calma e firme anunciou no alto-falante a chegada do vôo. O anúncio a despertou imediatamente de seu torpor, fazendo com que se deparasse com a dura realidade que a esperava. Estava prestes a encarar seu passado.

Consciente do que a aguardava, pensou em ir embora. Afinal, não se sentia obrigada a estar ali, a não ser por sua consciência que teimava em lhe cobrar respostas sobre tudo a que havia renunciado. Resignada, resolveu ficar e manter-se calma até o fim.

Quando deu por si o avião já taxiava na pista e ela podia ouvir o barulho do motor diminuindo. Está na hora, ela pensou. Não tenho mais como adiar. Rapidamente dirigiu-se ao portão de desembarque, guiada pelo coração que, parecia, ia saltar-lhe pela boca.

Esperançosa de conseguir vê-lo antes do reencontro esticou o pescoço no vidro que dava para o salão tentando um melhor ângulo para ver os passageiros que adentravam o recinto. Um a um iam descendo as escadas, como numa coreografia mal ensaiada.

Em sua mente ela selecionava cuidadosamente as lembranças que guardava de seu rosto. Os olhos eram de um azul tão intenso que lembravam o mar nos dias de verão. A pele morena contrastava com seus cabelos acobreados pelos raios do sol. O largo sorriso deixava sua expressão ainda mais cativante.

Enquanto observava atentamente as pessoas que iam se aglomerando no salão, ela o avistou no alto da escada. Era ele! Só podia ser ele. Ela sentia com todo o seu ser a sua presença, e mesmo que estivesse a muitos metros de distância saberia identificá-lo em meio a uma multidão. Calmamente ele desceu as escadas, degrau por degrau, parecia um tanto cansado, um pouco mais magro e abatido. Caminhava de cabeça baixa em direção à saída.

De repente ele olhou para frente e em uma fração de segundo seus olhos se encontraram. Ela sentiu como se o tempo tivesse parado. Todos os seus anos de vida, de experiência, de estudos e aprendizado agora de nada valiam. Naquele vácuo do tempo o que lhe restava era apenas o amor que sentia por ele. Ela se arrependeu por não tê-lo amado mais no passado e se sentiu grata por saber amá-lo tanto naquele momento.

O mergulho no oceano daqueles olhos azuis lhe tirou o fôlego e por um momento precisou recobrar a respiração, o que fez com muito custo. Sentiu-se corar e baixou os olhos, pois não agüentava o peso em sua consciência imputando-lhe a culpa por tê-lo  deixado partir. O curto espaço que os separava lhe permitiu apenas respirar fundo uma vez mais até que em segundos ele a alcançou. Estavam frente a frente, após todo aquele tempo, e só o que ela conseguia pensar era que não devia ter vindo.

Entretanto, era tarde demais, precisava enfrentar seus fantasmas e reescrever sua história. Assim, em um impulso, misto de dor e saudade, conseguiu saudar-lhe e dizer que estava feliz por reencontrá-lo. Dele, recebeu um amável sorriso e um caloroso abraço. Envolta por seus braços sentiu-se viva e podia percebê-lo pleno de gratidão por estar ali. Após o longo cumprimento entreolharam-se e neste momento ela se perguntou o que estivera fazendo com sua vida por todo aquele tempo. Decidida, puxou-o para perto de si e lhe prometeu que jamais o deixaria ir embora novamente.

Juntos deixaram o aeroporto rumo à nova vida que escolheram viver.

 

(continua…)

 

O fantasma do metrô – Capítulo 1

No meio da noite Henriqueta ouviu seu nome. Acordou assustada e o viu parado à sua frente.

Sem acreditar naquela visão esfregou os olhos vigorosamente e tornou a abri-los. Ele ainda estava lá. Ela pensou que talvez estivesse sonhando. Fechou os olhos novamente e tornou a abri-los. Neste momento, ele lhe deu um sorriso.

Agora ela estava assustada.
Pensou em gritar, mas àquela hora da noite os vizinhos não iriam ouvir. Pensou então em sair correndo, mas teve medo dele segui-la. Achou que poderia arremessar o abajur contra ele, mas teve medo dele revidar, embora não entendesse muito bem como um fantasma poderia fazer isto. Mesmo assim, achou melhor não arriscar.

Então, num ato de coragem, confrontou-o:

- Quem é você? O que você quer?

Neste momento, a imagem se desvaneceu, sumindo em meio a uma névoa branca. Henriqueta apertou os olhos procurando ver alguma coisa. Nada. Não conseguia ver mais nada. Ficou pensativa tentando entender o que tinha acontecido. Adormeceu imersa em seus próprios pensamentos.

Acordou com um solavanco.
Olhou ao redor assustada, estava no metrô. Ficou desesperada, tinha dormido no caminho para o trabalho. Sentia-se atordoada. Tentou se levantar, mas sentiu-se zonza. Estava enjoada e teve medo de desmaiar. Apoiou-se na janela e deixou-se cair pesadamente sobre o banco.

Quando as portas do metrô se abriram na estação seguinte um homem entrou. Henriqueta sentiu-se desfalecer, ao perceber que era o fantasma. Ele correu para ampará-la antes que caísse.

Quando ela acordou em seus braços, ele lhe sorria delicadamente.

 

(continua…)

 

Blog Stats

  • 1,635 hits
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.